Primaveril (onze de agosto de 2003)
A florzinha já não sabe, se é verdade,
Que o sol está mais frio do que antes.
No bosque que dorme ao fim da Rua Sorocabana,
Moram três fadas invisíveis - que sabem espreitar a todos e tudo - na madrugada.
Nunca olho para o céu, quando é dia.
Talvez, as constelações do dia, sejam mentiras do céu anil.
Quem há de se transportar para Vênus,
Numa noite esporádica de meados de inverno?
Talvez, nós.
No alto da avenida mais próxima,
Aquele vento, nômade, amigo, já íntimo da minha pele,
Sopra a canção do vendedor de afiar lâminas.
Lembro-me sempre de um rosto, o mais feminino, o mais longínquo.
Uma nova face eu entrego, sem a piedade do meu algoz, a andorinha fujona.
As três fadas já não conseguem flutuar por sobre as copas das árvores.
Descem ao chão com suas pernas finas e curvas,
Batendo asas de seda, com tanta sofreguidão, sofrimento.
Sou delas, um amigo, uma referência cruzada, entre a realidade e a Verdade.
Verdadeiramente irreal, é o que pescamos de dentro dos anzóis da mente.
A chaminé, antigo obelisco do meu bairro, cala-se.
Fica inerte ao vento.
Inerente ao tempo, concomitante e paralelamente ao meu desejo de ar puro.
Chaminé que alimenta a sensação de estar em casa.
Estou na colina, aquela que escolhi, quando eu ainda era apenas um espírito.
Talvez, a primavera dê a sua vez ao verão.
Talvez, ela tenha se zangado com os habitantes do bosque.
Por dentro deste frio que veio despedir-se,
Há sempre um questionamento autoritário,
Sobre o motivo que causa o desaparecimento dos olhos das pessoas.
A formação rochosa da nuvem do crepúsculo,
Mostra exatamente como me sinto agora.
Poeira cósmica de grãos planetas,
Solidez eterna de água congelada.
Mas, o frio, sempre vai embora.
Vou até a praça da Cruz, rezar.
Lá, existe um porto seguro, uma razão para viver.
Preciso de muitas razões, incoerências e respostas.
Venha comigo.
Vamos orar por um mundo menos real.
Quando anoitecer, iremos dormir nos arbustos.
Iremos criar cânticos e instrumentos musicais autônomos.
Que vibrem quando o inverno partir.
Que estipulem a quantidade de felicidade,
Que gastaremos na próxima primavera.
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
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