sexta-feira, 27 de agosto de 2010

TEN-YEAR SPRING

Primaveril (onze de agosto de 2003)




A florzinha já não sabe, se é verdade,

Que o sol está mais frio do que antes.

No bosque que dorme ao fim da Rua Sorocabana,

Moram três fadas invisíveis - que sabem espreitar a todos e tudo - na madrugada.



Nunca olho para o céu, quando é dia.

Talvez, as constelações do dia, sejam mentiras do céu anil.

Quem há de se transportar para Vênus,

Numa noite esporádica de meados de inverno?

Talvez, nós.



No alto da avenida mais próxima,

Aquele vento, nômade, amigo, já íntimo da minha pele,

Sopra a canção do vendedor de afiar lâminas.

Lembro-me sempre de um rosto, o mais feminino, o mais longínquo.

Uma nova face eu entrego, sem a piedade do meu algoz, a andorinha fujona.



As três fadas já não conseguem flutuar por sobre as copas das árvores.

Descem ao chão com suas pernas finas e curvas,

Batendo asas de seda, com tanta sofreguidão, sofrimento.

Sou delas, um amigo, uma referência cruzada, entre a realidade e a Verdade.

Verdadeiramente irreal, é o que pescamos de dentro dos anzóis da mente.



A chaminé, antigo obelisco do meu bairro, cala-se.

Fica inerte ao vento.

Inerente ao tempo, concomitante e paralelamente ao meu desejo de ar puro.

Chaminé que alimenta a sensação de estar em casa.

Estou na colina, aquela que escolhi, quando eu ainda era apenas um espírito.



Talvez, a primavera dê a sua vez ao verão.

Talvez, ela tenha se zangado com os habitantes do bosque.

Por dentro deste frio que veio despedir-se,

Há sempre um questionamento autoritário,

Sobre o motivo que causa o desaparecimento dos olhos das pessoas.



A formação rochosa da nuvem do crepúsculo,

Mostra exatamente como me sinto agora.

Poeira cósmica de grãos planetas,

Solidez eterna de água congelada.

Mas, o frio, sempre vai embora.



Vou até a praça da Cruz, rezar.

Lá, existe um porto seguro, uma razão para viver.

Preciso de muitas razões, incoerências e respostas.

Venha comigo.

Vamos orar por um mundo menos real.



Quando anoitecer, iremos dormir nos arbustos.

Iremos criar cânticos e instrumentos musicais autônomos.

Que vibrem quando o inverno partir.

Que estipulem a quantidade de felicidade,

Que gastaremos na próxima primavera.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

árctico


o degelo é alucinógeno,
mas molha os pés.

eu pensava, eu via,
jamais entendia.

quando é que somos reais?
quando é que realmente somos?

eu penso que, talvez,
seja mesmo melhor acreditar nos contos.
jamais, em fadas.

pólo-sul.
nada mais aconchegante.
nada mais, acolhedor.
o dia dura meio ano,
a noite vai meses afora.

que vontade de ir
embora.

sábado, 29 de maio de 2010

Absoluto

Unir os pedaços,
Cola, traços, limpeza.

Cadastros, Iluminações, Varais de poemas,
Sobrevoo o ilustre, abandono o tardio.

Novamente colado, amalgamado,
mal amado.

Sóis de todos os cantos,
Vem ao encontro do término e do sânscrito.
Solas de todas as estradas,
Riachos, quedas d'água.

Parada solitária,
D'alma sem mágica.

Outra vez:
                  errante no espaço,
Sideral Lar,
De mim, um
Pedaço.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

No Picture

Os pés vão até certo ponto.
Além daí, devemos seguir sem pegadas.
Não levo fotografias,
Não ostento canções.
Não solfejo elogios, a ninguém.

São tantos dias.
Já são horas,
Não há tempo, não vem hoje.

***

Sete e meia, o trabalho.
Meio-dia, o encontro.
Seis horas, a rua ferve.
Meia-noite, o norte se ergue.


***

Apenas letras, sem imagem.
Apenas sons de teclas, de um piano binário.
Branco planetário ao redor dos olhos.

Voltei à casa, donde nunca houvera saído, ou entrado.

*

quarta-feira, 20 de maio de 2009

depois do inverno

quando o frio for embora,
qualquer que seja a boa hora,
vou fazer estrofes, escrever linhas,
mandar sinais rotos,
buscar novos rostos.

neste dia tão mágico,
cheio de alegorias no vazio,
eu percebo que andei um tanto
arredio.

talvez, essas canções
devam ser substituidas.

novas manias,
velhas amigas.

voltei, sim.

sou o mesmo de sempre.

mas continuo sem saber
quem sou.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

life is something funny

você tem tudo, tem
às vezes, tudo amontoado
em brisas de tons rochosos.

eu continuo indo,
continuo dependurado nas janelas.

estar assim, suspenso, assim, farfalhando
de desejo o tempo todo, assim, sustentado por
finíssimos fios do aço mais poderoso...

eu tenho tudo.
o necessário para tropeçar,
o equipamento para me erguer.

janelas, janelas,
pássaros e passarelas,
penas, asas, mazelas.

ruídos, embaços,
matilhas, dentes,
marquises recorrentes.

flutuação e margem distante.
eu procuro o que já encontrei,
pois a vida, essa ardilosa,
nos incita...

não evitemos.

sábado, 1 de novembro de 2008

[ONE]



sinto-me só,
mesmo com os teus olhos em mim,
mesmo com os teus olhares dispersos
na atmosfera, na estratosfera.

Sinto que há nave-mãe,
que há orfandade no amor.

Amor deveria ser pleonasmo
por si só.

Mas, sinto a solidão como a
companheira que ajuda a diluir
a fumaça que protege os meus sonhos.

Um só.

Não dizer o que é sentido,
deveria fazer menos do que o menor sentido.
Mãos dadas ao vento,
A suspirar sem ar
As medidas extremas do passado.
A distância deveria ser alívio,
por si só.

Suspenso em cordas de amarrar corações.
Dissipado nas lembranças,
Nas tranças das recordações.

Deve Tu, também,
Ter a sensação de solidão que eu contemplo.
Deve ser assim com quase todos.
Quase todos são sós.

Apenas os mais insanos
devem sentir presenças,
Devem sorver alianças
Perenes dos corações alheios.

Um só.
Eu sou.
Só um.

Apenas eu.
Duras penas.